Por que os linfonodos são retirados na cirurgia de câncer de pulmão?
Por Dr. Ricardo Terra, especialista em cirurgia torácica em São Paulo, CRM-SP 97.469 e RQE 105125.
Na cirurgia de pulmão para tratamento do câncer, a retirada de linfonodos
ajuda a descobrir se células tumorais saíram do tumor principal e alcançaram outras regiões do tórax. Essa informação permite definir o estágio da doença com maior precisão e pode modificar a necessidade de tratamentos complementares após a operação.
A análise dos linfonodos faz parte do tratamento cirúrgico adequado do câncer de pulmão e não significa, por si só, que exista suspeita de doença avançada. Mesmo quando os exames realizados antes da cirurgia não mostram alterações, alguns linfonodos precisam ser avaliados. Entenda por que essa etapa é importante e o que os resultados podem representar.
O que são os linfonodos do pulmão?
Os linfonodos são
pequenas estruturas do sistema linfático que participam da defesa do organismo. No tórax, estão distribuídos em diferentes regiões, inclusive dentro do pulmão, próximos aos brônquios, na raiz pulmonar e no mediastino, região localizada entre os dois pulmões.
O sistema linfático transporta líquidos e células por uma rede de vasos. Quando um
câncer de pulmão começa a se disseminar pela via linfática, alguns grupos de linfonodos podem receber células tumorais.
Por isso, avaliar esses linfonodos é uma parte importante do estadiamento. Saber se estão livres ou comprometidos ajuda a entender até onde a doença se estendeu.
Por que os linfonodos são retirados durante a cirurgia de pulmão?
A retirada dos linfonodos permite avaliar com maior precisão a extensão do câncer e faz parte de uma cirurgia oncológica adequada.
Em uma
operação para câncer de pulmão, o objetivo não é retirar apenas o tumor visível. Dependendo do caso, o cirurgião remove a parte do pulmão comprometida e também avalia os linfonodos relacionados àquela região.
A análise responde a uma pergunta fundamental: existem células tumorais fora do tumor principal?
O resultado pode confirmar o estágio estimado antes da operação ou revelar um comprometimento microscópico que não aparecia nos exames de imagem. Essa informação ajuda a
definir com mais segurança as próximas etapas do tratamento.
Retirar os linfonodos significa que o câncer já se espalhou?
Não, a retirada dos linfonodos não significa que eles estejam necessariamente comprometidos.
Eles são removidos justamente
para que possam ser analisados pelo patologista e confirmar se existem células tumorais.
Tomografia,
PET-CT e outros exames ajudam a estimar o risco antes da cirurgia, mas não conseguem identificar todas as alterações microscópicas. Um linfonodo com aparência normal pode, eventualmente, conter pequenas quantidades de células tumorais.
O contrário também acontece. Um linfonodo aumentado ou com maior atividade no PET-CT pode estar relacionado a inflamação ou infecção, e não necessariamente ao câncer.
Por isso, a análise do tecido oferece uma informação mais precisa.
O que os linfonodos têm a ver com o estágio do câncer de pulmão?
O comprometimento dos linfonodos é um dos elementos utilizados para determinar o estágio do câncer de pulmão.
A classificação
TNM considera três componentes:
T, características e extensão do tumor principal.
N, presença e localização de linfonodos regionais comprometidos.
M, presença de metástases à distância.
Não importa apenas saber se existe um linfonodo positivo.
A localização também modifica a classificação.
Os linfonodos podem estar dentro do próprio pulmão, próximos aos brônquios, na raiz pulmonar ou no mediastino. Além disso, existe diferença entre o comprometimento de uma única região linfonodal e de várias regiões.
Por isso,
dois pacientes com linfonodos positivos podem apresentar estágios e estratégias de tratamento diferentes.
O que são estações linfonodais?
Estações linfonodais são
regiões padronizadas utilizadas para indicar onde os linfonodos estão localizados dentro do tórax.
Essa divisão permite que cirurgiões, oncologistas, radiologistas e patologistas utilizem a mesma referência ao descrever a doença.
Existem estações próximas à traqueia, abaixo de sua bifurcação, ao redor dos grandes vasos, no hilo pulmonar e em outras regiões do tórax.
Durante a cirurgia de pulmão, determinadas estações são avaliadas conforme a localização do tumor e o tipo de operação realizada.
Os linfonodos também podem ser enviados separadamente ao patologista, permitindo identificar exatamente quais regiões estão livres e quais apresentam comprometimento.
Qual é a diferença entre amostragem e dissecção dos linfonodos?
Existem diferentes formas de avaliar os linfonodos durante uma cirurgia para câncer de pulmão.
Na
amostragem linfonodal, são retirados linfonodos ou estações selecionadas para análise.
Na dissecção linfonodal sistemática, o cirurgião remove de maneira organizada os tecidos linfáticos de regiões definidas, seguindo referências anatômicas.
A escolha depende das características do tumor, de sua localização, do tipo de ressecção e do planejamento cirúrgico.
Mais importante do que o nome da técnica é garantir uma avaliação adequada dos linfonodos, porque um estadiamento incompleto pode dificultar a definição correta da extensão da doença.
Mesmo um câncer pequeno precisa ter os linfonodos avaliados?
Em muitos casos, sim. Um tumor pequeno não garante que os linfonodos estejam livres de células tumorais.
Nos estágios iniciais, o risco de comprometimento linfonodal tende a ser menor, mas não é inexistente.
A avaliação durante a cirurgia ajuda justamente a confirmar se a doença estava restrita à região prevista.
Um pequeno tumor pode parecer completamente localizado nos exames. Se os linfonodos analisados estiverem livres, essa impressão pode ser confirmada. Se forem encontradas células tumorais microscópicas em um deles, o estágio pode mudar e outras estratégias de tratamento podem precisar ser consideradas.
PET-CT normal elimina a necessidade de retirar os linfonodos?
Não, um PET-CT sem alterações reduz a suspeita de comprometimento linfonodal, mas não exclui completamente a doença microscópica.
O PET-CT identifica principalmente alterações com atividade metabólica suficiente para serem detectadas.
Pequenos focos de células tumorais podem não aparecer no exame.
Por isso, existe diferença entre o estadiamento realizado antes da cirurgia e aquele definido depois.
Antes da operação, tomografia, PET-CT e outros exames ajudam a estabelecer o chamado estadiamento clínico.
Após a cirurgia de pulmão, o tumor e os linfonodos retirados são examinados ao microscópio. Essa análise permite estabelecer o estadiamento patológico, que oferece informações mais precisas sobre a extensão da doença no paciente operado.
O que acontece com os linfonodos depois da cirurgia?
Os linfonodos retirados durante a operação são enviados para
análise anatomopatológica.
O patologista examina os tecidos para procurar células tumorais e identificar quais regiões apresentam comprometimento.
O laudo pode trazer informações como:
- Número de linfonodos avaliados
- Número de linfonodos comprometidos
- Estações linfonodais envolvidas
- Características do tumor principal
- Situação das margens cirúrgicas
Esses dados são analisados em conjunto para definir o estágio patológico final.
Em alguns pacientes, o resultado confirma exatamente aquilo que os exames sugeriam antes da cirurgia. Em outros, podem ser encontradas alterações microscópicas que modificam a classificação inicial.
O resultado dos linfonodos pode mudar o tratamento depois da cirurgia?
Sim, a análise dos linfonodos
pode modificar a necessidade de tratamentos complementares após a operação.
Um tumor que parecia estar em estágio inicial pode apresentar comprometimento linfonodal identificado somente no exame anatomopatológico. Nesse cenário, o estágio pode mudar e a equipe pode considerar quimioterapia,
imunoterapia, terapia-alvo ou outras estratégias, dependendo das características do câncer.
Quando os linfonodos estão livres e a doença foi completamente removida, o planejamento pode ser diferente.
A decisão após a cirurgia não depende apenas dos linfonodos. Tamanho do tumor, tipo histológico, alterações moleculares, margens cirúrgicas e condições clínicas também são considerados.
Por isso, a avaliação linfonodal não serve apenas para descrever o que foi encontrado. Ela pode influenciar diretamente o tratamento que vem depois.
Linfonodo positivo significa metástase?
Um linfonodo positivo significa que
foram encontradas células tumorais naquela estrutura, mas isso não significa automaticamente metástase à distância ou câncer em estágio 4.
Na classificação TNM, os linfonodos regionais fazem parte do componente N.
As metástases à distância pertencem ao componente M e correspondem à disseminação para outros órgãos ou locais que não fazem parte dos linfonodos regionais daquele câncer.
Por isso,
um paciente pode apresentar linfonodos positivos e ainda ter uma doença tratada com intenção curativa.
O significado depende principalmente de quais linfonodos estão comprometidos e da extensão desse envolvimento.
Todos os linfonodos do tórax são retirados?
Não, a cirurgia não tem como objetivo remover todos os linfonodos existentes dentro do tórax.
A avaliação é
direcionada a grupos e estações importantes para a drenagem linfática do pulmão e para o estadiamento do câncer.
O cirurgião utiliza referências anatômicas para identificar quais regiões devem ser avaliadas.
A quantidade de linfonodos retirados pode variar conforme o lado e o lobo onde está o tumor, o tipo de ressecção e as características da doença.
Por esse motivo, olhar apenas para o número total de linfonodos descrito no laudo não é suficiente para avaliar a qualidade do estadiamento. Também é importante saber quais estações foram examinadas.
A retirada dos linfonodos aumenta muito a cirurgia?
A avaliação dos linfonodos faz parte da própria técnica da cirurgia oncológica pulmonar.
A dissecção precisa ser cuidadosa porque os linfonodos podem estar próximos a estruturas importantes, como vasos sanguíneos, brônquios, traqueia, esôfago e nervos.
Como qualquer etapa de uma operação, existem riscos que precisam ser considerados. Ao mesmo tempo, uma avaliação linfonodal adequada fornece informações fundamentais para determinar o estágio e planejar o tratamento.
O objetivo não é retirar tecidos indiscriminadamente, mas
realizar uma operação completa do ponto de vista oncológico.
É possível retirar os linfonodos por cirurgia robótica?
Sim, a retirada e avaliação dos linfonodos podem ser realizadas por diferentes vias cirúrgicas, incluindo
videotoracoscopia e cirurgia robótica.
A escolha da técnica depende das características da doença, da anatomia, da cirurgia necessária e da experiência da equipe.
Na abordagem robótica, a visão ampliada e os instrumentos articulados podem facilitar dissecações detalhadas em determinadas regiões do tórax.
A tecnologia, porém, não muda o objetivo do tratamento. Seja por cirurgia aberta, vídeo ou robótica,
a cirurgia de pulmão precisa respeitar os mesmos princípios oncológicos, com retirada adequada do tumor e avaliação correta dos linfonodos.
E se nenhum linfonodo apresentar câncer?
Quando todos os linfonodos analisados estão livres de células tumorais, o resultado ajuda a
confirmar a classificação N0 e representa uma informação favorável no estadiamento.
Ainda assim, a definição das próximas etapas não depende apenas desse dado.
Tamanho e características do tumor, invasão de estruturas próximas, margens cirúrgicas, tipo histológico e alterações moleculares também podem influenciar a necessidade de tratamentos complementares.
Por isso, o resultado anatomopatológico deve
sempre ser interpretado de forma completa, e não apenas pela situação dos linfonodos.
E se algum linfonodo apresentar células tumorais?
Quando são encontradas células tumorais em um linfonodo, a classificação N pode mudar e, consequentemente, o estágio da doença também pode ser diferente daquele estimado antes da cirurgia.
O significado depende de onde está o linfonodo e de quantas regiões apresentam comprometimento.
Um linfonodo localizado próximo ao tumor não tem necessariamente o mesmo impacto de um comprometimento mais extenso dos linfonodos mediastinais.
Por isso, não basta ler no laudo que o linfonodo foi “positivo”. É importante compreender qual estação estava envolvida e qual é a extensão total da doença.
Por que conhecer o estágio depois da cirurgia é tão importante?
O estágio patológico mostra com
maior precisão qual era a extensão do câncer no momento da operação.
Essa informação ajuda a estimar o risco de recorrência e a decidir se algum tratamento deve complementar a cirurgia.
Atualmente, o câncer de pulmão pode ser tratado com diferentes combinações de cirurgia, quimioterapia, imunoterapia e terapias direcionadas, dependendo do estágio e das características biológicas do tumor.
A avaliação dos linfonodos tem um papel importante nessa definição porque conecta o que foi encontrado durante a cirurgia de pulmão às decisões que serão tomadas após o procedimento.
Perguntas relacionadas
Retirar os linfonodos significa que o câncer já se espalhou?
Não, os linfonodos são retirados justamente para verificar se estão comprometidos. Mesmo quando parecem normais nos exames, podem conter alterações microscópicas.
Mesmo um tumor pequeno precisa ter os linfonodos avaliados?
Em muitos casos, sim. Tumores pequenos têm menor risco de comprometimento linfonodal, mas a possibilidade não é zero. A análise ajuda a confirmar se a doença realmente estava localizada.
Todos os linfonodos do tórax são retirados durante a cirurgia?
Não, o cirurgião avalia grupos e estações linfonodais específicos, de acordo com a localização do tumor, o tipo de cirurgia e os princípios do estadiamento oncológico.
O que acontece com os linfonodos retirados?
Eles são encaminhados para análise anatomopatológica. O patologista verifica se existem células tumorais e informa quais regiões apresentam ou não comprometimento.
Linfonodo positivo significa câncer em estágio 4?
Não, linfonodos regionais positivos fazem parte da classificação N do sistema TNM. Estágio 4 está relacionado à presença de metástases à distância, classificada pelo componente M.
O resultado dos linfonodos pode mudar o tratamento após a cirurgia?
Sim, o comprometimento linfonodal pode influenciar a indicação de quimioterapia, imunoterapia, terapia-alvo ou outras estratégias complementares, conforme as características do tumor.
Se todos os linfonodos forem negativos, significa que nenhum outro tratamento será necessário?
Não necessariamente. Tamanho do tumor, margens cirúrgicas, invasão de estruturas próximas e alterações moleculares também podem influenciar a indicação de tratamento após a cirurgia.
Cirurgião torácico em São Paulo | Prof. Dr. Ricardo Terra
Os linfonodos são analisados porque podem conter células tumorais mesmo quando parecem normais nos exames realizados antes da operação.
O resultado permite determinar com maior precisão se a doença estava restrita ao pulmão ou se alcançou estruturas linfáticas regionais.
Essa informação pode confirmar ou modificar o estágio e influenciar a necessidade de quimioterapia, imunoterapia, terapia-alvo ou outras estratégias após a cirurgia.
Ter linfonodos positivos não significa automaticamente doença metastática à distância, assim como retirar linfonodos não significa que o cirurgião já saiba que eles estão comprometidos.
A análise faz parte de uma cirurgia oncológica adequada.
Após uma cirurgia para câncer de pulmão, compreender o resultado anatomopatológico completo é importante para saber o que foi encontrado e quais serão os próximos passos.
Eu sou o
Dr. Ricardo Terra, especialista em cirurgia torácica e
membro ativo de importantes sociedades de Cirurgia Torácica e Câncer de Pulmão. Tenho formação pela USP, mestrado na Universidade Harvard e doutorado na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), além disso, sou Chefe da Equipe de Cirurgia Torácica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP). Ofereço uma experiência valiosa e conhecimento aprofundado no manejo de condições pulmonares como doenças torácicas, câncer de pulmão, nódulos pulmonares e tumores de mediastino, com foco em humanismo, empatia, atualização científica e excelência técnica.
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